
A minha aventura do Burning Man não foi uma aventura solitária
Foi uma aventura de companheirismo e amizade
O acampamento Portuga era constituido por mim,
pelo Ric (grande companheiro de aventuras passadas)
pelo Chico (grande companheiro de aventuras futuras)
e pela Joana, (a grande amiga, veterana destas andanças que alinhou sempre em tudo e que nos aturou corajosamente)
Sendo tipicos portugas chegámos já bem tarde ao recinto, o Burning Man começou na segunda mas nós só fomos na quinta á noite devido aos compromissos laborais
A viagem de São Francisco até Black Rock City correu sempre sem sobressaltos, 2 carros carregados de material de campismo e bicicletas,rasgando o alcatrão americano a velocidades que induzem sono no europeu comum,torna-se duro fazer 550 kms a 11o á hora

A saida de São Francisco foi demorada devido ao transito normal de um final de dia,de resto foi sempre a andar parando apenas para o habitual refill ou para comer qualquer coisa,apesar de receosos nunca tivemos quaisquer contratempos com a força policial
A chegada foi um pouco confusa pois não sabiamos bem o que esperar.Nos checkpoints de entrada fomos recebidos por uma senhora já com uma certa idade que nos perguntou se era a primeira vez. Resposta afirmativa, no caso dos rapazes, como tal fomos convidados a participar num pequeno ritual de iniciação. Deitar-nos no chão do deserto e fazer um anjo de pó,relutantes e ainda com medo de nos sujarmos acedemos ao pedido.
A partir do momento em que estava no chão,em que o sujar-me já era inevitável, comecei a compreender,comecei a sair da preocupação, quando me levantei, a senhora deu-me um grande abraço e disse:
Welcome home
Eramos agora parte daquilo e riamos que nem uns putos maravilhados,estávamos em casa
Foi nos dado mapas do recinto,guias de actividade e mais material de leitura diverso
Encetámos a procura de um sitio para acampar, procurávamos o acampamento de uns amigos da Joana que tinham ido mais cedo.
Tarefa nada façil. Escuro,a menos de 10km\h, fascinados com a quantidade de luzes estranhas,pessoas cheias de glowsticks,acampamentos artisticamente complexos, e principalmente pela nossa ansia de fazer rapidamente parte daquilo tudo.
Claro que nos perdemos logo e decidimos parar o carro,biclas para fora,cerveja para dentro e o acampamento que se lixe,depois amanhã logo nos mudamos.
Era um bom plano,mas eventualmente acabámos por ficar o resto dos dias acampados perto de onde parámos o carro, os amigos da Joana ainda os encontrámos,vontade de mudarmos tudo para lá é que não lol
A nossa casa na Rua das sete horas com a F

Para quem está habituado a acampar sabe que a partir do momento em que o sol incide directo sobre a tenda, acaba o sono descansado, o calor e a luz acabam com o sonho de dormir até tarde.

No Burning Man esse fenomeno é amplificado pela ausencia de qualquer sombra,pela cor do solo e pelo barulho de vizinhos com geradores. Custa a primeira vez,depois acaba por ser na boa, dormir dorme-se em casa\escola\trabalho
Depois de um nutritivo pequeno almoço de barras de cereais,coca-cola e sandes de atum começavam os nossos preparativos para uma dura jornada de Burning Man, Protector solar espalhado,chapeus na cabeça,body paint desenhado,bisnagas carregadas e siga

Estipulávamos um plano,o que ver,onde ir,o que fazer e nunca o cumpriamos.
Problemas nas biclas,desorientação,tempestades de pó ou simplesmente porque algo nos chamava a atenção e esqueciamos o plano.
Mas tambem,planos são para turistas e no Burning Man não há turistas
É impossivel ver tudo o que há para ver e fazer tudo o que há para fazer,portanto pessoal que na Expo98 tentou carimbar o passporte em todos os pavilhões esqueçam lá isso,o deserto não é muito bom sitio para corridas,sabe bem melhor ir ao sabor do imprevisto
Dito isto,visitámos as capelinhas mais importantes ah ah
Na fila para o pavilhão de Angola

A vista para o oceanário

O oceanário
Eusébio e Amália

Pavilhão da França,danças folclóricas tradicionais

Delegação da covilhã,queijo da serra incluido
Percorriamos quilometros todos os dias,a paisagem ás vezes engana,o que parece perto a maioria das vezes não é tão perto assim.Debaixo do calor parávamos constantemente para beber água,é uma obrigação beber água constantemente, a partir do momento em que se tem sede é porque já começámos a desidratar e no deserto pode significar morte,a sério.
Com o calor temos menos fome,no entanto nunca deixámos que isso fosse um problema, o nosso grelhador maravilha fez fumo todos os dias e graças á oportunidade de ter uma geleira com gelo seco(grande joana) tivemos carne congelada até ao último dia

As condições atmosfericas determinam muitas das nossas movimentações e nada é mais dificil de enfrentar que um whiteout,uma tempestade de pó e areia que faz com que não se veja nada á frente do nariz,que por sua vez tem dificuldade em respirar

Resultado


Chegar á tenda e ver que apesar de ser á prova de água não é à prova de pó tem piada

Mascara de neve e lenços é a única alternativa para enfrentar o pó,protege mesmo e ficamos com um aspecto apocaliptico de bonus

Não é tão mau como parece,não é terra,é pó altamente alcalino,não cheira mal,não incomoda,para alem de um nariz um pouco entupido e de ficarmos com uma aparência silver
Noite
Black Rock City à noite é bastante diferente, a ausência de luz faz com que toda a gente se encha de glowsticks e luzinhas, todos os art cars e restante arte ligam neons, o que faz com que se torne um mundo fluorescente





A música à noite está em todo o lado e é festa garantida,com mais ou menos pó





Burning The Man
A noite de sabado, a noite da queima,acaba por ser um anticlimax,porque se por um lado é a razão primordial de tudo isto existir,significa tambem o seu fim.É um pouco como o ano novo,toda a gente curte muito mais na vespera do que propriamente na noite da passagem do ano.
É no entanto uma ocasião memoravel, os bombeiros e organização montam um perimetro de segurança em volta do Man e todos os habitantes de Black Rock se dispõem á sua volta,a antecipação é grande,as pessoas ficam electricas e quando começa o fogo de artificio ouve-se uma euforia colectiva.

A queima inicia-se com uma explosão de fogo e depois tudo decorre lentamente,até que a torre e o Man desabem em chamas.



As reacções são diferentes para todos, há quem chore,há quem grite para o queimarem,há quem comente que as queimas anteriores foram melhores,tipo treinador de bancada,há quem faça amor no chão iluminado pela fogueira gigante e há quem simplesmente observe tudo,como eu que me perdi do resto da malta minutos antes de tudo começar.Foi um momento estranho para mim,se por um lado ninguem quer fazer a "passagem do ano" sozinho,por outro senti as coisas por mim,ainda não consigo perceber o que senti mas gostei muito daquele momento.
O exodo
No dia seguinte á queima começa o exodo.
Apesar de ainda haver muito a fazer,o templo só é queimado no domingo por exemplo.
Andar por Black Rock quando o exodo já começou é estranho,sentir que tudo o que era vida e entusiasmo está a desaparecer,o fantasma da vida real espreita-nos já por cima do ombro.
Para nós o Domingo foi um dia calmo,passeámos calmamente até á Torre,fomos até à fronteira de Black Rock City,dancámos um pouco num chillout,o Chico falou com Deus
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o que restou do Man

e para terminar uma bezana colectiva que culminou com um Blackout, o meu :)

No dia seguinte,foi a nossa vez de fazer o exodo, desmontar tudo e olhar para o vazio progressivo.
Acordei zenissimo,aqueles dias trouxeram-me uma paz imensa e olhar agora para o deserto enquanto me ia embora não foi triste foi sim quase revelatório,afinal é possivel,afinal existe mesmo,a place called home

Na fila para entrar no mundo real ofereceram-nos os melhores hotdogs que já comi,acabados de fazer, e para finalizar ofereceram-nos uma caixinha com cinzas do Man


Despedimo-nos do deserto mas ainda não voltámos do Burning Man,fisicamente existe uma semana por ano,de resto fica connosco o ano inteiro.