sexta-feira, 19 de setembro de 2008

You have the right to remain silent...

A América é fixe e sinto-me bem aqui,no entanto nem tudo é positivo

Das coisas que mais me irrita é sentir que estou num estado policial,sinto a presença da policia constantemente e mesmo sem ter a intenção de quebrar qualquer lei tenho medo de ser abordado por eles.

A América é a terra da inovação e da diversidade,mas para mim nunca será a terra da liberdade, isto porque as regras e leis são feitas pelo minimo denominador comum, o estado parte do principio que somos o mais burro possivel e como tal não poderemos ter na mão um poder fundamental,o bom senso, sendo assim tudo regula, e impõe as regras de uma forma brutal
Há quem concorde com esta aproximação e há até quem atribua o nosso atraso comparativo ao laxismo pela forma como encaramos regras.No entanto depois de aqui estar uns tempos acho que sem dúvida nenhuma somos muito mais equilibrados,responsáveis e consequentemente mais livres.

A noite acaba cedo e isso até pode não ser mau,apesar de chato, no entanto estar numa discoteca em que se pagou para entrar,a conversar e a acabar uma cerveja que custou 5 dolares e de repente vir um segurança e tirá-la da mão sem qualquer explicação, só aqui mesmo. Aparentemente a partir do momento que o bar fecha,por volta da 1:40, já ninguem pode beber.
Inflexibilidade no seu pior
Claro que o resto do pessoal ir beber para a casa de banho é muito mais civilizado e normal...

Nem vou falar de condução porque já sabem que sou um acérrimo defensor da ideia de que a velocidade se deve adequar ás condições de estrada e do carro, para mim ir numa autoestrada com 3 faixas a 110kms\h durante centenas de kms, nunca irá ter lógica e nunca me fará sentir mais seguro, a não ser que com seguro queiram dizer sonolento.
A sensação constante é de frustração,não é que queira andar a fazer corridas,mas gostava de poder conduzir sem ter que estar sempre a olhar para o conta quilometros

Com o passar do tempo começamos a ficar mais confiantes, claro.
É ai que começa a nossa estupidez,sabemos que o sistema é castrador,no entanto tentamos a nossa sorte, com resultados imprevisiveis
Esta quarta feira a voltar para casa depois de uma noite de happy hour na Minna, o Ricardo foi mandado parar, digamos que excesso de velocidade(ridiculo)+alcool(residual)+carta portuguesa(aqui nada vale)= Big Trouble $$$

A culpa é nossa e a responsabilidade também, os montantes envolvidos e todo o processo associado é que ... só na america



terça-feira, 16 de setembro de 2008

Dentes do Siso,a desgraça,o horror, a tragédia...

Sexta feira acordei com uma dorzinha,mais do que uma dorzinha,uma pressão incomoda nos dentes.
Fiquei logo irritado,queres ver que é desta que vou ver se o Michael Moore tinha razão?
Que o sistema de saúde americano é só para os ricos?

Como quem tem cú tem medo,antes de sair de Portugal fiz um seguro de viagem,não fosse eu cair em desgraça na terra do Tio Sam.(Orlando da Best Travel Loures um bem haja)
Liguei para o numero de assistência e um senhor simpatico disse-me que apesar dos seguros geralmente não cobrirem problemas dentários,neste caso pagariam sempre a primeira consulta.

Fiquei mais descansado e fui procurar um dentista.

Apesar de ter uma relativa urgência só consegui consulta para hoje, à sexta os dentistas estão a andar de iate

Fui ao consultório da Doutora Tucker,um consultório asiático e com pessoal muito simpático.

Após um raio x altamente tecnológico a doutora lá me disse que o dente do siso tinha que ser extraido ou desvitalizado,mas que não fazia mal porque nem o usamos e tal,depois falou nuns milhares de dollares,mas eu já nem ouvi bem, só pensava na dor e na recuperação, na forma diligente em como lavei os dentes a seguir ás refeições totalmente em vão, em como o idiota do meu dentista me disse que estava tudo bem, e tudo isto por um dente que a acreditar na Doutora Tucker, nem sequer utilizamos para mastigar.

O sacana lá escondido atrás, o inútil que nunca cumpriu a sua missão,nunca me deu o juizo prometido e agora estava-me a fazer esta desfeita.
Lá expliquei que no meu país os dentistas tambem são seres de outro planeta com permissão para nos assaltar á vontade,no entanto são de um planeta mais modesto e como tal secalhar preferia ser assaltado por eles.
Como não me doi e ainda tenho comigo o melhor remédio do mundo(nimed) decidi jogar á roleta russa e esperar até chegar a Portugal para arrancar o sacana.
Só me resta agradecer à Doutora muito simpática que tão prontamente fez o meu diagnóstico, pagar os 80 dolares da consulta e ir rapidamente comprar um chocolate daqueles bem gordos,só para chatear
Arranquem os gajos, não merecem a nossa dedicação,é esse o meu conselho para todos os meninos e meninas

Union Square

No outro dia fui passear pelo centro de São Francisco, não o centro histórico,nem o centro cultural mas o centro de negócios e de comercio.

Fica uma reportagem fotográfica,para quem gosta de arquitectura e urbanismo.
É uma cidade bem bonita que conta com surpresas como a Chinatown no meio de prédios gigantes

Union Square



Maquinas de jornais



James Flood Building,único sobrevivente no terramoto de 1906




quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Bad Religion

"Hey do what you want
but don't do it around me
Idleness and dissipation breed apathy
I sit on my ass all goddamn day
A misanthropic anthropoid with nothing to
Say what you must, do all you can,
Break all the fucking rules and
Go to Hell with Superman and
Die like a champion, yeah hey!
Hey I don't know if the billions will survive,
But I'll believe in God when 1 and 1 are 5
My moniker is man and I'm rotten to the core
I'll tear down the building just to pass through the door
So do what you must, do all you can,
Break all the fucking rules and
Go to Hell with Superman and
Die like a champion, yeah hey!"



Quem me conhece sabe que Bad Religion é talvez a minha banda favorita,não que eu saiba as músicas todas de cor,ou que oiça todos os dias,ou mesmo todas as semanas.

É a minha banda favorita pela forma como me marcou a adolescênçia, as suas letras e postura,além de que é super melódico e viciante.

Neste contexto qual não é o meu espanto quando descubro quase sem querer que Bad Religion vinham tocar a São Francisco :)

Já os tinhas visto ao vivo em Madrid,desloquei-me lá de propósito com um grupo espectacular de amigos.

No entanto vê-los na California é o tipo de coisa que sonhava quando tinha 17 anos, no meu quarto na Amadora,enquanto ouvia o Suffer do Marufo.

Nota-se que estão longe de estarem na moda,no entanto quem gosta,gosta sempre e eu curti que nem um maluco,tocaram os clássicos quase todos e deixaram toda a gente felizDepois de todo o ambiente zen do Burning Man soube-me bem uma roda á moda antiga,um pouco de violência controlada para me fazer suar e cantar alto.Evoluir mas nunca esqueçer as raizes


Cervejas a 6 dollares num concerto de punk rock? Só na América...

Golden Gate Bridge, ponte gêmea

"Descapotável pela ponte com o cabelo a voar
O calor abrasador e a pressa de chegar
Óculos escuros da Ray-Ban e o cantante a partir
A K-7 dos Ramones para a gente curtir"

Há certas semelhanças entre São Francisco e Lisboa, como o facto de as duas cidades viverem muito a foz e o mar, as colinas com as suas subidas e descidas, os electricos e os santos populares,aqui chama-se parada gay pride :)

Mas a caracteristica que 80% das pessoas(estatistica oficial do Dany) refere como a maior semelhança entre São Francisco e Lisboa é a Golden Gate Bridge.

Construida em 1937 a Golden Gate é mais antiga que a ponte 25 de Abril (1966) e é maior 2,737m contra 2,278 m,tabuleiro central 1,280m contra 1,013 m.


Como em Lisboa nunca participei das maratonas da ponte,nem das corridas de bicicleta achei que aqui andar na ponte seria uma oportunidade a não perder, e não só andei como pedalei, é o chamado dois em um.

O vento gelado e o nevoeiro deixaram-me congelado mas foi uma boa sensação poder atravessar livremente um icon mundial, não tem qualquer vedação e talvez seja um dos factores para este ser o sitio com mais suicidios no mundo.


Não encontrei o calor abrasador da caparica nem o Corcovado,ups Cristo Rei, encontrei um miradouro com uma paisagem muito bonita de São Francisco

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Na terra dos sonhos,parte 3

A minha aventura do Burning Man não foi uma aventura solitária
Foi uma aventura de companheirismo e amizade


O acampamento Portuga era constituido por mim,
pelo Ric (grande companheiro de aventuras passadas)
pelo Chico (grande companheiro de aventuras futuras)
e pela Joana, (a grande amiga, veterana destas andanças que alinhou sempre em tudo e que nos aturou corajosamente)

Sendo tipicos portugas chegámos já bem tarde ao recinto, o Burning Man começou na segunda mas nós só fomos na quinta á noite devido aos compromissos laborais

A viagem de São Francisco até Black Rock City correu sempre sem sobressaltos, 2 carros carregados de material de campismo e bicicletas,rasgando o alcatrão americano a velocidades que induzem sono no europeu comum,torna-se duro fazer 550 kms a 11o á hora
A saida de São Francisco foi demorada devido ao transito normal de um final de dia,de resto foi sempre a andar parando apenas para o habitual refill ou para comer qualquer coisa,apesar de receosos nunca tivemos quaisquer contratempos com a força policial

A chegada foi um pouco confusa pois não sabiamos bem o que esperar.Nos checkpoints de entrada fomos recebidos por uma senhora já com uma certa idade que nos perguntou se era a primeira vez. Resposta afirmativa, no caso dos rapazes, como tal fomos convidados a participar num pequeno ritual de iniciação. Deitar-nos no chão do deserto e fazer um anjo de pó,relutantes e ainda com medo de nos sujarmos acedemos ao pedido.



A partir do momento em que estava no chão,em que o sujar-me já era inevitável, comecei a compreender,comecei a sair da preocupação, quando me levantei, a senhora deu-me um grande abraço e disse:
Welcome home



Eramos agora parte daquilo e riamos que nem uns putos maravilhados,estávamos em casa

Foi nos dado mapas do recinto,guias de actividade e mais material de leitura diverso

Encetámos a procura de um sitio para acampar, procurávamos o acampamento de uns amigos da Joana que tinham ido mais cedo.


Tarefa nada façil. Escuro,a menos de 10km\h, fascinados com a quantidade de luzes estranhas,pessoas cheias de glowsticks,acampamentos artisticamente complexos, e principalmente pela nossa ansia de fazer rapidamente parte daquilo tudo.


Claro que nos perdemos logo e decidimos parar o carro,biclas para fora,cerveja para dentro e o acampamento que se lixe,depois amanhã logo nos mudamos.
Era um bom plano,mas eventualmente acabámos por ficar o resto dos dias acampados perto de onde parámos o carro, os amigos da Joana ainda os encontrámos,vontade de mudarmos tudo para lá é que não lol




A nossa casa na Rua das sete horas com a F


Para quem está habituado a acampar sabe que a partir do momento em que o sol incide directo sobre a tenda, acaba o sono descansado, o calor e a luz acabam com o sonho de dormir até tarde.
No Burning Man esse fenomeno é amplificado pela ausencia de qualquer sombra,pela cor do solo e pelo barulho de vizinhos com geradores. Custa a primeira vez,depois acaba por ser na boa, dormir dorme-se em casa\escola\trabalho

Depois de um nutritivo pequeno almoço de barras de cereais,coca-cola e sandes de atum começavam os nossos preparativos para uma dura jornada de Burning Man, Protector solar espalhado,chapeus na cabeça,body paint desenhado,bisnagas carregadas e siga




Estipulávamos um plano,o que ver,onde ir,o que fazer e nunca o cumpriamos.

Problemas nas biclas,desorientação,tempestades de pó ou simplesmente porque algo nos chamava a atenção e esqueciamos o plano.

Mas tambem,planos são para turistas e no Burning Man não há turistas

É impossivel ver tudo o que há para ver e fazer tudo o que há para fazer,portanto pessoal que na Expo98 tentou carimbar o passporte em todos os pavilhões esqueçam lá isso,o deserto não é muito bom sitio para corridas,sabe bem melhor ir ao sabor do imprevisto

Dito isto,visitámos as capelinhas mais importantes ah ah

Na fila para o pavilhão de Angola


A vista para o oceanário



O oceanário

Eusébio e Amália


Pavilhão da França,danças folclóricas tradicionais


Delegação da covilhã,queijo da serra incluido

Percorriamos quilometros todos os dias,a paisagem ás vezes engana,o que parece perto a maioria das vezes não é tão perto assim.Debaixo do calor parávamos constantemente para beber água,é uma obrigação beber água constantemente, a partir do momento em que se tem sede é porque já começámos a desidratar e no deserto pode significar morte,a sério.

Com o calor temos menos fome,no entanto nunca deixámos que isso fosse um problema, o nosso grelhador maravilha fez fumo todos os dias e graças á oportunidade de ter uma geleira com gelo seco(grande joana) tivemos carne congelada até ao último dia

As condições atmosfericas determinam muitas das nossas movimentações e nada é mais dificil de enfrentar que um whiteout,uma tempestade de pó e areia que faz com que não se veja nada á frente do nariz,que por sua vez tem dificuldade em respirar


Resultado

Chegar á tenda e ver que apesar de ser á prova de água não é à prova de pó tem piada
Mascara de neve e lenços é a única alternativa para enfrentar o pó,protege mesmo e ficamos com um aspecto apocaliptico de bonus Não é tão mau como parece,não é terra,é pó altamente alcalino,não cheira mal,não incomoda,para alem de um nariz um pouco entupido e de ficarmos com uma aparência silver

Noite

Black Rock City à noite é bastante diferente, a ausência de luz faz com que toda a gente se encha de glowsticks e luzinhas, todos os art cars e restante arte ligam neons, o que faz com que se torne um mundo fluorescente




A música à noite está em todo o lado e é festa garantida,com mais ou menos pó






Burning The Man

A noite de sabado, a noite da queima,acaba por ser um anticlimax,porque se por um lado é a razão primordial de tudo isto existir,significa tambem o seu fim.É um pouco como o ano novo,toda a gente curte muito mais na vespera do que propriamente na noite da passagem do ano.
É no entanto uma ocasião memoravel, os bombeiros e organização montam um perimetro de segurança em volta do Man e todos os habitantes de Black Rock se dispõem á sua volta,a antecipação é grande,as pessoas ficam electricas e quando começa o fogo de artificio ouve-se uma euforia colectiva.

A queima inicia-se com uma explosão de fogo e depois tudo decorre lentamente,até que a torre e o Man desabem em chamas. As reacções são diferentes para todos, há quem chore,há quem grite para o queimarem,há quem comente que as queimas anteriores foram melhores,tipo treinador de bancada,há quem faça amor no chão iluminado pela fogueira gigante e há quem simplesmente observe tudo,como eu que me perdi do resto da malta minutos antes de tudo começar.Foi um momento estranho para mim,se por um lado ninguem quer fazer a "passagem do ano" sozinho,por outro senti as coisas por mim,ainda não consigo perceber o que senti mas gostei muito daquele momento.

O exodo

No dia seguinte á queima começa o exodo.

Apesar de ainda haver muito a fazer,o templo só é queimado no domingo por exemplo.

Andar por Black Rock quando o exodo já começou é estranho,sentir que tudo o que era vida e entusiasmo está a desaparecer,o fantasma da vida real espreita-nos já por cima do ombro.

Para nós o Domingo foi um dia calmo,passeámos calmamente até á Torre,fomos até à fronteira de Black Rock City,dancámos um pouco num chillout,o Chico falou com Deus

o que restou do Man

e para terminar uma bezana colectiva que culminou com um Blackout, o meu :)
No dia seguinte,foi a nossa vez de fazer o exodo, desmontar tudo e olhar para o vazio progressivo.

Acordei zenissimo,aqueles dias trouxeram-me uma paz imensa e olhar agora para o deserto enquanto me ia embora não foi triste foi sim quase revelatório,afinal é possivel,afinal existe mesmo,a place called home
Na fila para entrar no mundo real ofereceram-nos os melhores hotdogs que já comi,acabados de fazer, e para finalizar ofereceram-nos uma caixinha com cinzas do ManDespedimo-nos do deserto mas ainda não voltámos do Burning Man,fisicamente existe uma semana por ano,de resto fica connosco o ano inteiro.